Regata reúne velejadores locais em despedida da estação e coloca em cena a figura do skipper — profissional que mescla técnica, liderança e responsabilidade pelo mar
Quando as primeiras embarcações cruzaram a linha de largada às 11h00 deste domingo, o Canal São Gonçalo ainda guardava a leveza dourada do verão. O termômetro marcava 28°C, a brisa soprava constante do sudeste e as velas — brancas, coloridas, tensas contra o azul — transformaram as águas em frente ao Clube Veleiros Saldanha da Gama em um espetáculo que a cidade de Pelotas conhece há décadas, mas que nunca perde a força de surpreender.
A regata de encerramento da temporada estival de 2026 reuniu embarcações de diferentes categorias e velejadores de todos os níveis — dos iniciantes que ainda aprendem a ler o vento aos experientes que disputam provas há anos. No clube à margem do canal, cadeiras de alumínio, chimarrão de fim de estação e a ambiência de um amanhã que é, ao mesmo tempo, celebração e despedida.
A largada, sinalizada com precisão de horário e regra pela comissão de regata, desencadeou uma série de manobras ágeis: viradas bruscas, jibes controlados e a eterna disputa pelo barlavento que define quem sobe mais rápido rumo à primeira boia. Nas margens, familiares e curiosos acompanhavam cada movimento com o celular em riste — e com o olhar de quem sabe que vai demorar um bom tempo para ver tudo isso de novo.
Entre os velejadores mais aguardados estava Toni Caruccio, skipper com mais de quarenta anos de experiência nas águas gaúchas e referência na comunidade náutica regional. Enquanto preparava a embarcação para a largada, ele falou sobre o que é — e o que significa — ser skipper nos dias de hoje.
“O skipper não é só quem segura o leme. É quem responde pelo barco, pela tripulação e por qualquer decisão tomada enquanto estamos na água. Isso exige preparo técnico, autoridade e, acima de tudo, julgamento.”— Toni Caruccio, skipper
A definição que ele traça é precisa: o skipper é o comandante de uma embarcação de porte recreativo ou esportivo. Cabe a ele — ou a ela — o planejamento da rota, a coordenação das manobras a bordo, a gestão da tripulação e, sobretudo, a autoridade máxima em situações de segurança.
Para exercer a função com legitimidade, o skipper deve possuir formação reconhecida, experiência comprovada e licença válida emitida pelos órgãos competentes. No Brasil, a Marinha do Brasil regula as habilitações para amadores, e a progressão — de arrais amador a capitão amador — define o alcance de atuação de cada velejador.
Skipper × capitão de navio: qual é a diferença?
Embora tanto o skipper quanto o capitão de navio comercial exerçam comando sobre uma embarcação, as funções diferem em escala, responsabilidade legal e contexto operacional. O capitão de navio comanda embarcações de grande porte em rotas internacionais ou de cabotagem, com vínculo empregatício formal e regulação pela autoridade marítima internacional. É uma carreira que exige anos de formação em escola náutica e progressão hierárquica rígida.
Já o skipper atua predominantemente em ambientes recreativos, esportivos ou de charter náutico — veleiros, lanchas, iates de médio porte. Sua autoridade é igualmente absoluta a bordo, mas o contexto é outro: equipes menores, rotas costeiras ou lacustres, e uma relação mais direta com a tripulação. “A responsabilidade é a mesma em essência”, resume Caruccio. “O que muda é o tamanho do mundo ao redor.”
Ao fim da tarde, com os resultados ainda sendo apurados pela comissão e os primeiros barcos já amarrados no píer, o clube ganhou o tom festivo que marca o encerramento de toda boa temporada. Histórias de bordas por pouco, manobras bem executadas e trapézios no limite circulavam entre risos e cuias de chimarrão.
A regata do último domingo de verão no Saldanha da Gama não definiu campeões mundiais. Mas fez algo talvez mais importante: manteve viva a cultura da vela em Pelotas, cidade que tem no espelho d’água da Lagoa dos Patos um dos seus patrimônios mais subestimados — e mais belos.
Equipe de reportagem
P. R. Baptista — jornalista
Rogério Peres — produtor audiovisual
Daniela Xu — fotógrafa
Anthony Soares — cineasta
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